Sobre ser gay e outras coisas | Religião


A vida da gente segue por caminhos dos mais diversos e boa parte deles é sempre uma surpresa, entre os dilemas de escola, casa e família eu seguia lutando para deixar de ser gay, principalmente quando passei em um determinado local e alguém comentou, "ixxii, esse parece que é meio doente!".

Não me recordo bem do contexto, nem do que levou aqueles dois senhores a me observarem, mas em mim ficou gravado o fato que eu estava doente. Fiquei com aquilo na mente, e conclui por fim, "...se estou doente, então posso ser curado".

Fiz promessas para vários santos católicos, rezei o máximo que minha infância (leia-se as rezas que uma tia havia me ensinado) haviam me permitido. E tudo voltava para o mesmo círculo, a negação e rejeição de mim mesmo, eu aos poucos me tornava meu pior inimigo, olhar no espelho era horrível para mim, era como se meu reflexo jogasse na minha cara tudo aquilo que eu lutava todos os dias para esquecer.

Um belo dia zapeando pela tv, eis que tinha um homem, um pregador, falando sobre cura gay, e que na igreja que ele era pastor havia jeito para quem havia nascido "torto". Um prato cheio aos meus olhos que buscavam uma solução para o que eu havia aprendido ser um problema.

Dali em diante me tornei evangélico, e vivi uma busca incessante para ser "curado", eu queria e mais do que isso, eu achava que precisava. Isso me machucou ainda mais, eu continuava vivendo o dilema de querer mudar o que não precisava ser mudado, ser gay fazia (faz) parte de quem eu era (sou).

Mas eu acabei descobrindo que haviam mais jovens como eu na igreja, guardados sobre o manto que lhe dá a chancela de ser "macho", e naquele momento eu me peguei perguntando: e agora?

Nesse período eu já estava na universidade, e eu realmente creio que Deus põe anjos em nossos caminhos, e um dia cheguei na universidade um pouco mais cedo, com uma angústia que dividia minha alma, e eu já não sabia o que fazer, foi quando lembrei de uma mulher meiga, com um jeito de falar afetuoso mas muito firme naquilo que defende, e pensei, vou desabafar com ela, minha professora de psicologia da educação, - que é uma das disciplinas do curso de Pedagogia, no qual sou formado-.

Eu perguntei se ela podia conversar por uns instantes, e ela prontamente me disse que sim, fomos para a sala da coordenação e ela disse:

- E então Joanderson, o que você quer conversar?

Entrei num choro compulsivo. Ela, sempre profissional e muito responsável apenas me olhou, respeitando meu choro de desabafo. Até que por fim eu falei:

- Professora, é que... eu sou... [silêncio, e mais lágrimas].
- Você é o que Joanderson?
- A senhora sabe.
- Você é o que Joanderson?
- [Silêncio, e mais lágrimas].

Eu não conseguia falar, dizer em alto e bom som que eu era gay, era algo surreal para mim, logo eu que passei a infância e adolescência negando e dizendo a mim mesmo que aquilo era apenas uma fase, não podia naquele momento, afirmar aquilo.

Até que por fim, num ímpeto eu falei:

- Eu sou gay... [e seguiu-se mais uma sessão de choro].

Ela me abraçou, um abraço daqueles que dizem, olha está tudo bem. Foi o momento que me senti mais "normal" em toda a minha vida. Conversamos um pouco sobre a vida, amores e religião.

E eu comecei a me reconstruir em quanto homem, gay e cristão. Meu relacionamento com a minha fé ficou ainda mais forte, aprendi que Deus me ama e que cuida de mim a cada instante. Aprendi que sou criatura de suas mãos e não sou uma coisa abominável como ouvi diversas vezes.

A fé é importante para mim, e eu sou grato demais ao Divino, por em meio ao meu desespero ter posto um anjo, na minha graduação.

Essa mulher de voz meiga e pulso firme mudou minha vida, ela não demonizou minha fé, não disse que eu devia esquecer Deus, tampouco disse que eu era um monstro. Mas ela me ensinou que ser gay é ser gente, é está vivo, é ter fé, é respeitar quem não tem credo religioso, pois lhe é um direito legítimo, é respeitar o humano.

Ela me ensinou que eu deveria viver, plenamente. Sem mais receios.

Joanderson Oliveira

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