Sobre ser gay e outras coisas | o começo: escola e afins [parte II]


Quando falamos em escola talvez você imagine crianças sorrindo, brincando e sendo muito amigas, e sim, a minha escola também tinha todas essas coisas, muito embora essa não seja a parte que eu mais me recorde.

Ao longo dos anos ir a escola sempre foi um tormento para mim, ouvir piadinhas, xingamentos dos mais variados, "bichinha, mulherzinha, viadinho, boiola", eram parte de uma rotina que eram contínuas para mim. Meus professores e professoras não sabiam bem como me ajudar, e com o passar do tempo eu parei de me queixar, eu só ouvia e as vezes era empurrado, provocado e a cada dia eu torcia para que aqueles "machões da sala" não me batessem.

Talvez você me pergunte: E porque você não revidava?, porque quando a gente aprende que tem algo de errado consigo mesmo a gente passa a achar que merece passar por coisas desse tipo. Afinal quando se ouve a vida inteira que se é anormal (e abominável), você passa aceitar o bullying como algo que é culpa sua e não do seu algoz, como se ser "punido" fosse de alguma forma culpa sua, que afinal de contas "nasceu todo errado". Então você perde as forças para lutar.

Você não tem representatividade, ninguém lhe escuta, as pessoas só dizem para você falar mais grosso, andar mais firme e ter menos amizades com meninas, elas foram criadas para se "pegar", não para ser amiga de outro homem, vai acabar sendo viado andando cercado por meninas. Vai aprender como elas andam, falam e se vestem. Muitos me diziam.

Mas as meninas sempre foram acolhedoras e os meninos me zoavam não de forma amigável, mas me dizendo que eu era doente, anormal, "fresco", entre outras coisas. Porque eu iria querer andar com eles? Eles me davam medo.

Eu ia a escola o suficiente para não ser reprovado e faltava sempre que podia. Várias vezes saia de casa para ir a escola, mas ficava na rua ao lado, sentado na calçada, imaginando que minha vida era diferente, que eu era um menino como todos os outros, que ninguém me xingaria, que eu teria muitos amigos e que ninguém iria me olhar com pena ou reprovação.

Ser gay é difícil principalmente quando você não sabe nada sobre quem você é de fato, nada além do preconceito que despejam em cima de você e a indignação por você não agir e se comportar como o esperado socialmente.

"-Joanderson é tão bonitinho, pena que é viado!", me disse na porta da sala de aula uma colega de classe que se divertia em mostrar aos demais como eu agia diferente dos demais meninos. A professora em sala olhava com cara de quem não sabe o que fazer, com uma certa pena nos olhos, mas com nenhuma ação que me desse de alguma forma a certeza de que estava tudo bem.

Até que um dia ela me chamou em um canto e pediu para eu fazer o jogo dos que me chamavam de bichinha, que eu levasse na brincadeira, risse e não me importasse. Que eu perguntasse a eles: sou, e daí?, e seguisse a vida.

Me pareceu um bom conselho, e então eu comecei a fazer isso, e eles continuaram falando, mas eu já não me importava tanto, porém ainda me machucava como antes, porque eu ainda não sabia, nem entendia que essa dor só passaria com a aceitação, não das outras pessoas, mas quando eu mesmo me aceitasse como era, como sou.

Aceitação essa que só viria anos depois, e disso na época eu não sabia.

Joanderson Oliveira

Comentários

  1. Oi Joh,
    Fazia muito tempo que eu não aparecia por aqui, sinto muito que você tenha tido que passar por tudo isso, li o texto anterior também, sempre falei isso e reitero, você escreve muito bem, transmite uma empatia imensa. Espero que os professores de hoje estejam mais preparados para lidar com situações do tipo

    Grande abraço!

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