Sobre ser gay e outras coisas | o começo [parte I]


O que é ser gay afinal?

Para responder a essa pergunta eu quero que você volte comigo no tempo, alguns anos atrás, quando eu comecei a dar meus primeiros passos em uma infância que se mostraria cheia de desafios. As coisas iam bem, tudo normal até onde eu consigo me lembrar, tudo tranquilo na vida de alguém que tinha como única preocupação decidir qual desenho assistir e ficar sem entender quando adultos com certa autoridade na fala lhe dizem o tempo todo o que é coisa de menina, e o que é coisa de menino. [E por ai vai...]

Eu sempre fui uma criança que gostava de observar as pessoas, talvez porque desde cedo aprendi que elas me observavam o tempo todo, vez ou outra um parente dizia entre cochichos a outro: "acho que esse menino vai dá pra viado!", na minha inocência de criança eu nem sabia o que isso significava, mas pela expressão no rosto deles eu aprendi desde cedo que aquilo não devia ser algo bom.

Os anos passam, e de repente nosso convívio com adultos aumenta e ai mais pessoas vão surgindo e novamente mais adultos surgem em minha vida, e mais uma vez eles cochichavam uns com os outros que eu ia ser "mariquinha", "fresco", "alegre" e o mais assustador para mim naquela época, "um desgosto".

O tempo foi passando e eu fui notando que essas mesmas palavras usadas comigo também eram usadas com outros homens  que se portavam fora de um padrão de masculinidade esperado pela sociedade e isso me assustou, afinal eu ouvia o que os adultos que me cercavam diziam desses homens a quem chamavam de "bichinhas", e sem querer eu aprendi que não devia ser como eles.

Então eu tive medo, eu não queria ser uma "bichinha", um "viadinho", porque aqueles adultos olhavam para mim daquele jeito? Eu não entendia. A única coisa que eu havia entendido até então era de que eu tinha um "problema" e que eu precisava resolver, eu não podia ser um desgosto para minha família.

Passei a me esforçar, eu tinha que ser o melhor aluno, tirar as melhores notas, tinha que de alguma forma ser incrível em tudo que eu fizesse, para que assim, talvez, esses adultos parassem de me chamar daquelas coisas que eu não queria ser de jeito nenhum. E como mantra, todas as noites eu dizia a mim mesmo, eu não sou um "viadinho".

Alguns anos se passam e de repente além dos adultos que adoram cochichar sobre mim, agora meus colegas começaram a me chamar de bichinha, marica e outras coisas que me deixavam triste, como se eu tivesse a infelicidade de ter nascido todo errado.

Eu era só uma criança, eu nem sabia o que era sexo, atração, desejo. Mas eu aprendi desde cedo que havia algo errado comigo e que eu precisava me concertar de alguma forma, reparar esse defeito. Quantas vezes dobrei os joelhos, chorei, orei, e pedi a Deus que me mudasse, me transformasse em algo bom, porque pela reação das pessoas eu parecia ser tão anormal, e está tão errado, que a vida perdia seu sentido real.

Ir ao mercado, pegar um ônibus, comprar pão?, tudo era um processo, eu tinha que observar como estava andando, não podia mexer muito a mão, tinha que falar mais firme, gesticular o menos possível, olhar para baixo, evitar ser encarado. Eu surtava só de pensar que ao sair de algum ambiente, todos iriam ficar rindo de mim. Eu não era uma piada, e odiava ser tratado como tal.

A gente não nasce e em um belo dia decide que vai ser gay, a gente não escolhe, como muitos acreditam, (e embora seja clichê e você já tenha ouvido isso de muita gente por ai, acredite quando eu digo, não é opção) a gente só nasce, e ouve de várias pessoas nomes que muitas vezes nós nem entendemos, mas que nos classificam, nos separam, nos definem e muitas vezes nos hostilizam.

O meu maior medo quando criança? Era apanhar dos "machões" da minha sala. Ser empurrado, apontado, "olha o viadinho da sala", era parte de um cotidiano que eu não gosto muito de lembrar, mas que como cicatriz parece ter ficado em mim para me lembrar que dias difíceis não duram para sempre. Um dia eles passam.

Ser gay?
Ser gay é ser resiliente, é aprender a aprender a se amar e torcer para que tudo fique bem.

Joanderson Oliveira 




Comentários

  1. Não tem como ler sem brotar lágrimas. Como somos cruéis, como rotulamos e esquecemos que um "simples" comentário enquanto criança, vai atormentar toda uma vida. Fico tão feliz, em poder ler esse desabafo, essas linhas tão carregadas de sentimentos. Parabéns pela sua força e sim, você é FODA!!��������������

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  2. Difícil mesmo é ler tudo isso e mesmo não sendo a mesma vida, saber e ter memórias próprias de cada linha descrita...
    A sociedade não aguentaria 10% do que nos aguentamos e mesmo assim nos rotulam como "vitimistas".

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Obrigado pela visita! Espero que tenha gostado da crônica! =)