Apenas mais uma maria (in)visível


Não é incomum vermos pessoas passando por necessidades financeiras, nas ruas, nas cidades, sempre tem alguém pedindo uma ajuda, um socorro, ainda que momentâneo, algo que seja emergencial. Hoje no trabalho entrou uma mulher que embora eu não saiba seu nome, vou chamá-la de Maria, ela entrou acompanhada de duas crianças, antes de entrar porém ela passou um bom tempo em frente a porta do restaurante, esperando quem sabe ser notada, ser vista, esperando ao menos um sinal de que sua presença ali fosse percebida.
Como sua presença não foi notada ela entrou no restaurante, se dirigiu a dona, e com muito esforço pediu um pouco de comida, foi logo avisando que nem precisava ser para ela, bastava que fosse o suficiente para alimentar seus dois filhos. Em seu rosto estava claro a dor e uma especie de vergonha, vergonha de precisar mendigar o seu pão, vergonha de olhar em volta e ver tanta gente sorrindo, comendo, enquanto em sua barriga a fome gritava e dizia o nome dos seus filhos.
Por sorte a dona do restaurante lhe deu um pouco de comida, e nesse meio tempo um dos clientes veio até a dona do restaurante e disse que deixasse ela comer a vontade, que ele pagaria a conta dela, olhando a cena de longe fiquei imóvel, de repente a dor daquela mulher se tornou minha, e aquilo me afetava mais do que eu sequer imaginaria.
As duas crianças começaram a comer, de repente o semblante mudou e um sorriso apareceu no rosto dos dois pequenos, e ao ver seus filhos sorrindo, aquela Maria, também sorriu de contentamento. Tímida ficou em pé ao lado dos filhos, como se por não está bem vestida, ou por está ali através de um outra pessoa que pagaria por ela, lhe fosse negado o direito de sentar a mesa, me dirigi a ela e disse que ela poderia sentar e comer com eles, curiosa, olhou para mim assustada e disse: - "Posso?"
Eu nunca me senti tão impotente em toda minha vida, ver a dor de uma pessoa e não poder ajudar, e não poder tirar aquela pessoa daquela situação é algo angustiante. Saber que embora naquele momento ela tivesse comendo, mas que talvez a noite ela não tivesse a mesma sorte.
De longe continuei a observar, e Maria, embora simples, e sem condições financeiras para o mínimo possível ainda se preocupava com as boas maneiras, a ouvi por vezes dizer as crianças que não falassem de boca cheia, que comecem devagar porque comer apressadamente era algo feio, que mastigassem de boca fechada. Maria era apenas uma mãe, dando o seu melhor dentro de suas possibilidades.
Estou longe de conhecer a vida daquela Maria, de saber quais circunstâncias a levaram a essa situação de não ter nem ao menos o que comer. Mas eu sei que foi realizado um jantar caríssimo, muito luxuoso para 400 pessoas, e essas 400 pessoas decidiram que é melhor cortar gastos da saúde e da educação, congelá-los por 20 anos, para que o país saia da crise.
Mas e o que vai ser de Maria?
Quem está se preocupando com Maria?, com a sua pobreza, com suas necessidades? Que medidas estão sendo pensadas pelos nossos governantes para tirar a crise que Maria enfrenta todos os dias?
Vão parar de investir em saúde pública, em educação pública, vão congelar por 20 anos. As 400 pessoas podem pagar plano de saúde, universidade privada, mas e Maria que não pode pagar nem o comer que come (e quando come)?
Eu sei que esse texto não muda em nada a vida de Maria, gostaria muito que mudasse, mas ela é apenas mais uma Maria, (in)visível até que ela seja necessária, até que sua vida seja valiosa, para que os "poderosos" a vejam e saibam que precisam do seu voto, depois disso Maria vai continuar (in)visível, e os poderosos a organizarem jantares de luxo e nem se lembrarem de Maria.

Joanderson Oliveira

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