Me deixe ser saudade


Quem sabe um dia
por descuido ou poesia
você goste de ficar.
- Chico Buarque

Existem alguns dias em que a incompreensão sobre muitas coisas lhe invade, e mesmo sem entender bem o porque, você apenas escuta uma voz que parece vim do seu peito pedindo: me deixe ser saudade!

Sentado você olha a infinitude do céu e mesmo tão grande ele parece pequeno diante dos sentimentos nostálgicos que lhe dão bom dia, boa tarde e às vezes um boa noite fixado no teto do quarto, que você olha como se uma compreensão súbita fosse aparecer, algum tipo de insight noturno.

Uma saudade de ideais almejados, de viagens que não foram feitas, de momentos que não foram abraçados. Saudades de um "vir a ser" que se materializa em versos de canções que a gente escuta, em parte para esquecer, porém desconfio que na maior parte seja para lembrar... e ao final de cada verso, ao final de cada nota, seu coração insiste em dizer: me deixe ser saudade!

Promessas feitas, palavras ditas, beijos dados, mãos que se entrelaçaram, enquanto isso, um pouco mais a frente a mudança de tudo que se tinha, e no silêncio que se constrói apenas umas palavras são ditas, meio como sussurros, seu peito novamente lhe diz: me deixe ser saudade!

Você respira e por fim abraça a saudade como uma velha amiga, se permite (re)viver momentos e lembranças e sorri compreendendo que lembrar não é doloroso, lembrar é a certeza de que aqueles momentos vividos foram maravilhosos, e que se hoje são lembranças já não importa mais, pois viraram saudade. E como que em sussurro você responde para si mesmo: sim, eu te deixo ser saudade!

Nesse momento você percebe que pode olhar a saudade com uma delicadeza que a torna gostosa, que pode olha-lá trazendo a memória tudo aquilo que foi bom, que em certos momentos você jurou até que foi mágico e imagina as novas memórias que irá trilhar.

Porque toda saudade tem um gostinho de amor, seja de perto, de longe, do passado, do presente ou mesmo do futuro. Saudade é o amor gritando que ainda não desistiu de te encontrar, e que se preciso for ele pegará quantos caminhos forem necessários, vilas, ruas, becos, avenidas, não importa.

Você então deixa de pensar na saudade como um lamento e a planta como se fosse uma semente, quem sabe um dia ela brota e alguém a encontra e esse alguém queira não ser mais uma saudade em sua vida, mas queira matar toda a saudade que você já sentiu ou sentirá. E você sorri e fala pro seu coração: sim, eu te deixo ser saudade.

Por fim, Nando Reis vem a sua mente em forma de canção dizendo para esperar "o segundo sol chegar e realinhar as órbitas dos planetas".

E como um pedido final seu peito grita: me deixe ser saudade!

-Sim, eu deixo. - Digo por fim.

Joanderson Oliveira