Deveria ter sido apenas um dia normal


Então você sai de casa para o que você espera ser um dia normal. Seus planos não ferem ninguém, não causam dano. São apenas seus planos. E você tá ali no seu canto, indo ao cinema, a universidade, ao parque, ou a qualquer outro lugar. Você apenas está indo, despreocupado, acreditando que as más notícias acontecem com os outros, com você não, afinal você é o Sr. Sortudo.

O que você só não sabe, mas logo vai descobrir é que existem pessoas frias, calculistas, dispostas a qualquer coisa. Inclusive de tomar aquilo que é seu. De usurpar os frutos de sua conquista, de seu trabalho e de seu suor.

Você apenas ouve o pedido de dinheiro, a frase que diz claramente "passa o celular, se não vai ser tiro para todo lado", você olha pro lado e uma mulher que deveria ser um bom exemplo para o seu filho, está atrás de você com um canivete, uma especie de faca na mão, em conformidade com o filho exigindo que você entregue logo o que ambos querem. Eles querem aquilo que é seu. Você está em um ônibus, no que você erroneamente pensava ser uma viagem segura, e ainda sem reação apenas entrega o que os assaltantes exigem, você escuta aquela voz, voz de quem acha ter razão, com voz de quem se acha no direito de tirar do outro aquilo que lhe pertence.  

Enquanto isso nos bastidores da cena, pessoas assustadas contemplam tudo com muita naturalidade, como se fosse apenas mais uma cena cotidiana em um dia normal. Talvez quem sabe estejam agradecendo por não serem os "sortudos" da vez.

E você está ali, impotente para reclamar aquilo que é seu. Apenas entrega, enquanto cobrador e motorista fazem cara de paisagem para toda a cena.

Levaram seus bens, mas muito mais que isso lhe deixaram com a sensação de impotência, lhe deixaram as marcas da insegurança e de um medo que lhe diz o quão insegura pode ser uma caminhada.

O que mais lhe assusta é a naturalidade como tudo é tratado.

Na delegacia apenas querem que você faça um B.O. documento de gaveta ao que parece, já que a ação dos que lhe ouvem da a entender que é apenas mais um caso no meio de tantos. É apenas mais um sujeito que foi roubado. E não se há muito o que fazer. 

E você mais uma vez se sente impotente. Como se existir fosse viver a vulnerabilidade de ações que você se quer entende. Já que na sua mente é inconcebível usurpar o direito do próximo. Em casa você aprendeu desde cedo que roubar é errado, que ferir o outro não pode. E você pensa o que a mãe do rapaz disse a ele quando criança. E então lembra da cena e lembra que ambos agiam juntos, e entende que certas coisas são mesmo difíceis de entender. 

Quando pequeno até aprendeu que Papai do céu castiga quem tais coisas faz. O que agora depois do ocorrido faz todo sentido. Por que só nos resta esperar a providência Divina. Nossas autoridades parecem estar tão amedrontadas quanto nós. Aos bandidos parece ter ficado a última palavra. Hoje eles decidem quem atacam, quem deixam livre, quem matam e quem deixam viver.

Nossas autoridades parecem apenas fazerem documentos que contabilizam o número de crimes em nosso país, mas não nos trazem a segurança do poder ir e vir sem a preocupação de se vai voltar inteiro, ou pior ainda, se pelo menos volta com vida.

Seu dia não terminou normal, seus planos foram totalmente frustados.

Você então conclui que foi assaltado! E que ironicamente não há nada a se fazer. Apenas ouvir o conselho de sua Mainha, que lhe diz com muita calma, "tem nada não meu filho, mais tem Deus para dar do que o diabo para roubar".

Você então respira fundo e pede a Ele que lhe proteja e que traga as pessoas um pouco mais de humanidade, compaixão e amor ao próximo.

E sobre o dia que deveria ter sido normal você apenas o quer esquecer. Um capitulo que talvez merecesse ser arrancado, ou quem sabe um livro que nunca deveria ser lido.

Joanderson Oliveira